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ISBN: 9788563141200

Álvaro Faleiros (Poemas)
Selo Editorial

Do centro dos edifícios é um mergulho no medo que a grande urbe
causa num novo morador. Entre as fuligens dos arranha-céus, uma
janela se deixa ver ao longe. Dentro um homem respira versos de
sobrevivência. E quando em vez sonha também, algum deserto.

aqui o quanto
/assombros/ esses
gestos procriaram
também/ os espinhos/
no bueiro e sob os pés
/a boca dos lobos
depondo a cidade aos
cacos/ e ontem vi o sol
redondo /entre as
nuvens / trazia o eco
de um temporal /seus
insetos/ em nossas
narinas mil automóveis
repassam sua lição em
chamas /e era manhã

***


sobem /uns minutos/
medos no degrau com
rastro / um frio de
vísceras/ e ferrugem
sempre sobre os
passos de antes do
deserto da portaria
sempre /de assalto/

sempre nos ossos em
toda a contensão
//enfim só /depois das
escadas/ o piso
abrindo sorrisos / /
parece, sobrevivemos

***

hoje ninguém sai / no
vidro automóveis e nas
grades do centro dos
edifícios / /difícil será
romper o asfalto de tanta
distância / / da promessa
e segue a promessa
ainda... /segundos de
elevador/ seus onze choros/
piso a piso / /


e se cair a ligação das redes?


não desanime /diz/ os
azulejos não esfriam dentro
dos chuveiros

***

e de novo sempre ovos
que nas mãos se
desfazem / / ovos num
estalo /algemas nas
mãos/ todas as noites
atrás da pálpebra /treme
com aquele medo sempre

de que as mãos que
estalam sejam ovos

***

/a menina/ chove
sem quintal / olha
/ um só néon
avança sobre um
astro de espelhos
expele e pulsa/
sob as luzes beija
/ / nas portas dos
banheiros/ /
brinca de abismo
devora os seus
sapos

***

na tenda ao lado
o beduíno sonha
sua vaca sonha
ser vaca sagrada que sonha um boi
que sonha ser vaca

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