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ISBN: 9788566423464

Álvaro Faleiros (Poemas) | Fernando Vilela (Ilustrações)
Editora Demônio Negro
Caracol de Nós (2018)

Este projeto poético é a reunião de três livros — Caracol de nós; Ecos de Oniska; Sobre azul e pequenas conchas. Embora distintos, guardam em comum um procedimento: nascem da contaminação afetiva provocada por certas poéticas. Em Caracol de nós, é a poesia do jovem Henri Michaux que me habita e se há versos inteiros retomados de Michaux, eles se modulam no cruzamento desses nós, ativando espaços de memória e dor. Ecos de Oniska nasce de minha vivência, durante um retiro de cura na floresta, acompanhado do estudo intitulado Oniska: poética do xamanismo na amazônia, de Pedro Cesarino, dedicado aos cantos Marubo. Sobre azul e pequenas conchas provém da força da poesia de Radovan Ivsic, poeta croata exilado na França. Seus versos, traduzidos por ele mesmo ao francês, conduziram-me a uma espécie de transe rente ao amor…

LIVRO I
Caracol de Nós_arte.jpg

Difícil abrir o ventre

 

I

o tigre de garras impiedosas

urra de prazer

 

seu ganido atravessa a noite

 

sorriso de quem degusta

um coração

 

ai leitor

 

escuta a fome desta sílaba

 

franqueza ardilosa que nos espera

 

a crueza de um criador

cravando dentes na memória

 

II

ui ui

 

assim não

com tanta força

 

ai mas…

 

tarde demais

desatarraxaram

 

abriram o ventre

o médico esqueceu de apertar o parafuso

 

roda na porca espanada

o umbigo não segura

não dá as voltas certas

não colam mais os dois lados da pele aberta

podem enxergar pelo umbigo

 

não é belo ver

assim por dentro

 

III

agora

 

 devoram e devoram nosso coração

 

quantas vezes perdemos

o coração, amor

 

entre os tigres

bem no fundo da caverna

 

o coração, amor

 

IV

aprendeu com muito custo

a romper o rabo das lagartixas

não que seja difícil

é apenas o asco de vê-los saltar

 

nunca ouviu seus gritos

mas é feroz

como abrem a boca

 

como se desapegam dos rabos

para guardar a perna

 

é uma lógica budista

a dos rabos das lagartixas

 

V

o oceano parece tão sólido daqui

um grande brinquedo

do tamanho da noite

mergulhado a nossos pés

 

espumas brancas

os brônquios são algas

 

um caracol de navios entre os dedos

 

os braços

brincando de vela

na perna branda

e seu saco de biscoitos macios

 

 

***
 

São distintos os gritos dos calabouços

 

I

por dentro da aldeia

um vento terrível

sopra

 

agulha de aço

o medo tão frio

a comissão da verdade

 

II

na fazenda dos banhos nus

desperta um cavalo

 

coberto de neve

relincha nomes negros

 

no fogo de suas ventas

uns mil desejos

 

“acostumei brincar de criador

pisotear corpos

amansar pernas no feno”

relincha

 

os cascos arrancam gritos

de corpos machucados

 

III

alguns homens acostumaram-se a desencapar fios

produzem arrepios que mudam

dependendo de quem os toca

 

na eletricidade

até os mais calmos sucumbem

 

amarras na memória

acumulam pó espesso

espremem-na

sai algo do que perdemos

 

esqueceram

um só — leitor — no sótão

sem ninguém pra costurar

 

IV

troveja agora na casa do vento

recolhemos nossos desaparecidos

 

melhor chorar assim

tricotando as horas

com os cachos dos cabelos caindo sobre os olhos

 

apanhar com a mão a lembrança que escorre

entrar no puro pelo dardo da doçura

 

deitar cedo para melhor chorar

limpar os olhos

 

… há sempre um estreito a se atravessar…

 

e depois

ir por onde deslizavam as estrelas

 

são seus olhos as estrelas

assim revemos o rosto vivo que o tempo cega

 

e assistimos à água que cai

 

V

a noite, o grande frio, a escuridão

o bicho corre, passa, morre

o pássaro passa, voa, morre

o homem come, passa, morre

o peixe nada, nada, nada

 

e o céu cava sua luz

no imenso frio da escuridão

 

por entre os gritos

 

V

mas…

um morto habita

o terceiro andar

 

seu vulto caminha a noite

soprada entre algumas estrelas

que contudo haviam prometido não voltar

 

nem sempre é fácil partir

as aderências da terra

saudades dos que ficam

seu choros

 

o gosto da carne e dos corpos

atravessando a boca da memória

 

desistir de dizer adeus

um hábito

ou o esquecimento

 

nem todos os mortos desistem fácil

 

VI

sopra sopra pelo meio

o corpo morto

deixar-se morrer inteiro

já sem palavras

 

que ele se deixe

deitado na noite

sem rebocos

 

 

VII

não, não podemos deixar-te ir

mas vais mesmo assim

 

as bandeiras dos sinos

agora cobertas

pela estopa do esquecimento

 

mesmos que não saibamos te esquecer

escapas

 

morrer junto?

um pouco morremos

 

o réptil que devora teu fogo

se estende a nós

 

VIII

nã nã nã nã nã

canto-adeus-canto

 

nã nã nã nã

asas de morcego

batem em nossa cara

 

nã nã nã nã

canto-cortejo

expira

 

nã nã nã nã

a fuga do espírito aconteceu

LIVRO II

Ecos de oniska

(Recantos Marubo)

Soprocanto

I

vento vento vento

 

nos lírios-névoa

o céu saliva

 

meu saber desenhado

diante do coração

 

recanto

a água de seu sol

 

II

pedaço de cobra -leve

do alto sopro-picante

 

chamo por ti

pai pajé

 

aberto o caminho

meu oco ligado

a porta aberta

 

o caminho inteiro

bem forrado

de falas repleto

 

vives aí no canto

trazendo alegria

à morada desta terra

 

canta canta

a flor farfalha por dentro

 

meu lábio tatuado

arara no ombro

 

fala rara do belo canto

III

meu corpo anelado

as nossas mulheres

com a espuma

 

pelos caminhos descemos

descemos dançando nos vincos

 

a moça mostra as mãos

corpos vai desenhando

 

noites e noites

sempre foi assim

 

com sangue os pulsos

enfeito

com sangue a cintura

enfeito

 

um cesto enfeita

meu coração

 

o tronco da árvore-sol

as coxas da mulher

abrindo indo

 

pela fresta — o sol

a criança cria

 

vento de lírio

névoa

o vento envolto

 

o tempo flutua

dentro do seu néctar          

 

IV

soprocanto

 

um raio rápido

é meio-dia

 

escuta o pássaro

 

arranha o céu este cocar

 

***

 

Era-morte

 

I

duplos flechadores

com suas lanças

guerreiros enfeites trazem

 

atravessam a ponte

seus machados brancos

o pescoço do inimigo deceparam

 

seus filhos retalhados

às águas misturados

 

seus duplos solitários

nas lâminas das águas

 

navalhas d’água

entre piranhas dentadas

 

vão se desprendendo

se enroscando vão

pela colina da terra

 

assim chama seu fim

 

II

ferem os caules-lírio

machados de ferro

 

seus filhos derrubaram

troncos tombados

 

dentro do rio-morte

esconderam os corpos

 

o caldo com torpor beberam

os espectros alagados

 

II

na Terra-Morte erguido

ali onde se levantam

pedaços de cipó-morte

 

cordas-d’água

corda gigante

da seiva escorrida

 

cobra grande

transformando a carne

ali ao lado

em sua sombra lança

 

a insônia envenena seus feitiços

 

III

no terreiro da Terra-Morte

ali colocaram cruzados

 

pedaços de cobra

corpo de cobra

 

assim mesmo deitaram

as veias

a barriga

 

suas fezes espalhadas

suas tripas espalhadas

 

a cobra-morte           ao céu ataram

a cobra-morte atravessada nas costas

 

IV

espectros alagados

fazedores de rios

ajeitaram suas margens

 

filhos do povo frio

se desprendendo foram

 

formando fluxo

que seiva o tronco

 

nas folhas altas da copas

moram em sua sombra

 

 

vazio o caminho

quase mesmo estava

 

os viventes contudo

arrastam as unhas dos dedos dos pés

 

V

o caminho atravessam

com setas atravessam

 

fetos de pássaro

penas de hárpia

 

do sangue fruto fizeram

 

VI

sol que o céu aquece

acima vou passando

 

espalho plantas

o calor da cura

 

pelas costas do homem

alastra

no peito do homem

 

ventre não machuquem

bichos

muco-picante não entrem

 

a comida do homem perene

 

 

***

 

Shoma de muitas lâminas

 

Shoma,

uma miríade de espíritos benfazejos

presente em todas as partes

[Pedro Cesarino]

 

I

bela mulher desta terra

vem desde a relva aqui

 

fresco orvalho de estrela

aplaca a dor e a quentura

verte pra refrescar

 

Shoma de muitas lâminas

corta o peito do homem

varre no ventre

alivia

com suas setas a dor

 

Shoma de águas mornas

desce lavando o mel

assusta o lábio mortal

 

o fogo encostado

não ficam venenos

nem vasos doridos

 

só leves pedaços de algodão-sol

 

 

II

doce néctar de árvore

doce chamo por ti

 

adoce o rosto

desça pelo pescoço

rápido deixe o corpo

 

flor-jaguar

escorre líquida

sua pequena saia

 

escorre por dentro

do homem renovando

alimento

 

II

folha forte

a folha coa

 

do caldo bebe

a língua engole

 

muda em espírito

caminho d’água

 

sementes gêmeas

subindo pelo broto de rapé

 

assim mesmo escuta

vem chegando

 

rio-pássaro que nos serve

 

 

 

vem perambulando andando

pela terra antigo                             

gavião

 

por ti ágil

leve eu chamo

 

por dentro da cabeça lava

tirando o peso das costas

revira e soma

ao suor

 

suor por ti eu chamo

suor saindo

 

vem junto limpando andando

pela terra ancestral

 

III

muco de lança-vômito

pequenas plantas

coisas crescidas

vêm alegrar

as sombras da terra

 

em boas falas

as nossas mulheres

frutos crescidos

vêm espalhar

os ventos da terra

 

pra lá mesmo leve

 

***

 

O oco que toca

 

I

vamos te deixar

pequeno irmão

 

a preguiça-morte vai

sendo levada

 

no buraco agora

a carne apodrece

 

gargantas lamentam juntas

ruído rouco

mastigam sementes

 

estás morto

 

quieto e vazio

o caminho do porto ficou

 

II

na saia-morte

que com esforço fiz

para te enfeitar

te levam

vais pela ponte de cipó

 

dentro o néctar-morte

que por si mesmo surge

subindo

 

com claros olhos

olhe mesmo bem

 

pelo caminho da morte

vá embora

subindo

 

vá logo embora

 

III

na névoa da nuvem-rio

nos rachados da terra

 

espinhos fincados

pulando mesmo vou

outra colina

cabeça de anta

raia gigante

rolando-ando

subindo-indo

 

pelo vento vou

na névoa da nuvem-rio

 

sombras-morte

na morada desta terra

 

eu-só

contando a flor que chora

 

morada do homem só

todos aqueles galhos

 

o oco que toca

 

IV

néctar néctar néctar

cipó-sol por dentro

desenha

 

juntos vão-viver

 

com suas falas pensadas

o pulso em seu peito

desejo não-voltar

 

juntos vão-viver

 

caminhos planando

nas sombras dos galhos

nas nuvens das águas

 

juntos vão-viver

 

uma flor de leite

derrama a lua

assim sobem sem fome

da terra cansada

 

juntos vão-viver

 

V

o que fazer dos mortos

quando ainda são

fantasmas?

 

buquês de ossos

voos descalços

sais para banhos

almofadas

 

quando neles

encostam sonhos antigos

perdemos fome de flores

o gosto, o paladar

 

desenhamos seus vultos

nas conchas

passeamos os ouvidos

à espera do mar

 

mas

talvez aos dizê-los

fantasmas eles

nos deixem descansar

 

***

Caracol de Nós_livro III_Peq.jpg

Sobre azul e pequenas conchas

[Para Rita, intimamente]

 

 

l’amour nous connaît

et les ruines nous hantent

comment nager

dans la nuit dure?

 

Radovan Ivsic

 

I

beira-mar

o horizonte se abre

 

nua está a angra

e com algas nos dentes

o mar

 

a orla dança nas mãos dos peixes

enquanto nuvens irrompem nos corais

 

II

ali sobre a pelagem

pelas escamas                                                   

os peixes vêm

 

uma jangada singra

nos braços dela                                                                          

vermelho o sol

 

III

brinquedos deitam

seu vento frágil

 

mãos descobertas

atiçam fundo

um precipício

 

IV

são barcas abertas

essas ondas lisas

de seus olhos

 

 

V

onde o ruído arrulha

seus cardumes

 

pequenas pálpebras

escamam

um sussurro pelo cerne

                                              

brilho de sal nas conchas

os seus olhos que pendulam

 

VI

ela toda sem degraus

prepara um riso

 

o tempo para

ponteiros brincam

com o fôlego das espumas

 

VII

então deita

no amarelo das horas

toda sua corredeira

 

mirantes antigos

vasculham

vastas clareiras

 

enquanto sigo apenas

a tênue luz

esquecida dos faróis

 

VIII

sente as mãos nos ombros 

árvores nadam

até o alto mais fundo

 

trégua ao tempo que passa

peço

 

um rio por suas pernas

flui

 

e põe-se a tarde

suspensa de dor

IX

no vão de ir-se

de um corpo                              

 

o abismo

pelo calor de seu ventre

além de todas previsões

 

e vendemos tudo

lustres, medos, estofados

 

adquirimos

deriva nos cabelos

LIVRO III

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