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Paul Valéry - 2020
Feitiços [Charmes]
Editora Iluminuras
Tradução e Estudo de Roberto Zular e Álvaro Faleiros
2020 - Editora Iluminuras
Feitiços {Charmes} Paul Valéry

Agora chega ao Brasil uma tradução completa dos Feitiços [Charmes]. Trata-se de uma obra que, após a experiência radical de A jovem parca, flutua entre diversas possibilidades poéticas que produziriam obras-primas…. Ao longo dos poemas, será impossível o leitor não perceber o quanto a poesia de Valéry reverbera e ressignifica a fineza de sua prosa, que ocupa parte importante do seu legado. Mas é interessante notar que Valéry é desde o início poeta, sim, um poeta que levou tão a fundo as questões do seu ofício que tocou em uma infinidade de outras questões: da guerra à cosmologia, da linguagem à política, da vida sensível ao pensamento abstrato. Tudo entra em ressonância quando levamos ao limite a potência dos nossos atos.

[Por Roberto Zular e Álvaro Faleiros]

ISBN: 9786555190625

Aquela que dorme

 

Quais segredos me queimam por dentro, minha amiga?

A alma qual doce máscara aspirando a flor?

De que vãos alimentos seu ingênuo calor

Faz com que brilhe uma mulher adormecida?

 

Sopro, sonhos, silêncio, invencível calmaria,
Tu triunfas, ó paz, mais potente que um choro,

Se a onda grave e a amplidão do pleno sono

Conspiram sobre o seio de tal inimiga.

 

Dorme, soma dourada de sombras e abandonos,

O teu grave repouso se enche de tais dons,

Corça lânguida, até um cacho, lassa se move, 

 

Embora a alma se ausente em infernais projetos,

Puro ventre, tua forma, que um braço fluido envolve,

Vela; tua forma vela, e eu de olhos abertos

 

***

 

Os passos

 

Teus passos, meu silêncio cria,

Santa e lentamente pousados,

Ao leito da minha vigília

Procedem mudos e gelados.

 

Ente puro, vulto divino,

São doces teus passos contidos!

Deuses! todos os dons que adivinho

Vem a mim sobre pés despidos!

 

Se, com teu lábio em movimento,

Vens acalmar este desejo, 

De quem me habita o pensamento

Com o alimento de um beijo,

 

Não apressa esta atitude terna,

Em doce ser e não ser passo,

Pois que vivi de vossa espera,

E pus meu peito em vossos passos.

 

***

 

A abelha

 

Quão fino e fatal se estenda
O teu ferrão, ó loira abelha,

Sobre minha tenra corbelha,

Só lancei um sonho de renda.

 

Teu seio pica a bela inerte,
Onde o Amor morre ou adormece,

Que o pouco de mim que enrubesce

Venha à carne curva e rebelde!

 

Preciso agora de um tormento:

Um mal vivo e bem terminado

Supre um suplício sonolento!

 

Então meu senso é iluminado

Pelo brilho deste ínfimo alerta

Sem ele o Amor morre ou aquieta!

 

***

 

Palma

 

De sua graça e incerteza

Mal velando por seu brilho,

Um anjo coloca à mesa

O pão tenro, o leite frio;

Sua pálpebra me oferece

O sinal de uma prece

Que fala à minha visão:

— Calma, calma, vê se acalma!

Sinta o peso de uma palma

Da palmeira em profusão!

 

Desde que ela se dobre

À abundância do que é belo.

Sua figura se resolve,

Frutos densos são seus elos.

Admire como vibra,

E como uma lenta fibra

Que divisa esse momento,

Sem mistério ela encerra,

Toda a atração da terra

E o peso do firmamento!

 

Entre a sombra e o sol cintila

Belo árbitro em movimento:

Simula de uma sibila

Sono e conhecimento.

Em torno de um mesmo espaço

A palmeira sem cansaço

Nega o apelo, nega o adeus...

Como é nobre, como é terna!

Como, digna, ela espera

Apenas a mão de um deus!

 

Ouro leve ela murmura,

Ouro no ar ressoa certo,

E sua sedosa armadura

Preenche a alma do deserto.

Ela dá ao vento de areia

Uma voz que não rareia

E espalha seus grãos de vida,

Profetiza de si mesma

Se orgulha da proeza

Que entoam suas feridas.

 

Contudo, ela se ignora

Por entre a areia e o céu,

E as luzes de cada aurora

Lhe preparam algum mel.

Se mede sua afeição

Pela divina duração,

Não conta em dias louvores,

Mesmo assim os dissimula

Em um sumo onde acumula

Todo o aroma dos amores.

 

E se alguém se desespera,

E se o adorável rigor

Ignora o pranto e opera

Sob a sombra de langor,

Não, não acuse de avara

Uma Sábia que prepara

Tanto ouro e autoridade:

Por sua seiva solene

Uma esperança perene

Alcança a maturidade!

 

Seus dias indiferentes

Como se ao léu no universo

Fincam raízes ardentes

Que trabalham os desertos.

Substância vasta e repleta

Vai pelas trevas eleita

Sem parar o seu destino,

Até as entranhas do mundo,

Segue o rio mais profundo

Que demandam os seus cimos.

 

Paciência, tenha paciência,

Paciência no azul seguro!

Cada átomo de silêncio

Enseja um fruto maduro!

Virá a feliz surpresa:

Uma pomba, uma brisa,

O que mais doce estremece,

Uma mulher que se curva:

Farão cair essa chuva

Que de joelhos se agradece!

 

Que um povo pereça agora,

Ó Palma!… Ninguém resiste!

Na poeira em que ele rola

Sobre o seu fruto celeste!

Não perdestes essas horas

Se leve tu te demoras

Nesses belos abandonos;

Igual àquele que pensa

E cuja alma se dispensa

A crescer com esses seus dons!

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