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ISBN: 9786558460039

Prefácio, seleção e tradução de Álvaro Faleiros
2022 - Editora UnB
Nas Sendas de Jacques Brault

Apresentar para o público brasileiro um poeta tão desconhecido e tão essencial como Jacques Brault é exercício delicado. Por onde começar? Contar que nasceu em 1933 numa das miseráveis periferias de Montréal numa época em que ser francófono na cidade era sinônimo de pobreza? Lembrar do professor de estudos medievais da Universidade de Montréal ou do pesquisador que releu de modo original a obra de outros grandes poetas? Trazer à tona o ensaísta que borra os limites entre verso e prosa? Comentar o premiado romancista autor de um único mas decisivo romance, Agonie? Mencionar a centralidade da poesia na construção de sua extensa e variada obra? Aludir ao jardineiro que se tornou quando, recém-aposentado, mais de vinte anos atrás, optou por deixar a cidade grande para se dedicar à lida com a terra e com as palavras sujeitas ao tempo das estações? Aproximar-se de Brault é, de certo modo, compreender como em sua poética essas múltiplas dimensões se tocam, se chocam, se entrecruzam na elaboração desta escrita que abre-se a escolhas que ousaria chamar de ontológicas pelo fato de encontrar-se divida entre dois grandes limiares, o ser e o não-ser.

Em que outro mundo    me diga

em que outra vida    crês

o encontro de nossos silêncios

despertos com os barulhos da manhã

e em que outra noite

tua face redonda sob os meus dedos

       lua desnuda

 

***

 

este pássaro morto    certamente    é criança

minha criança não    mas o eu-criança

não a escuto mais correr detrás dos meus passos

seus rastros no tempo se apagam

pássaro caído do ninho    pássaro podrido

devolvido à terra    empoado de pó

criança livre eu cria como ar

mas de manhã após uma noite doce e dura

mas de manhã escuto apenas o silêncio

não meu silêncio   mas eu-silêncio

escuto que fala detrás das minhas palavras

seus ruídos no vento se espaçam

silêncio caído de noite silêncio gelado

que alcança enfim a borda

da palavra doce e dura

que levanta    como pássaro    cada manhã

e agora posso morrer

criança    de não mais morrer

 

***

 

Contorno de um ventre, a manhã se esquenta no côncavo do teu pescoço. Com verniz de não-sol, a face de teu rosto na penumbra se divide e multiplica-se sob minhas mãos que simulam te tocar. E o que é, súbito, essa claridade, essa evidência plantada em cheio no peito, que fez com que eu te consolasse antes de te conhecer? A noite divaga e afunda nessa manhã que mal começa. O verão porém vai gritar, fora e pelo céu, as árvores o cantaram por toda a noite ventosa, e nesta manhã vejo cada uma dessas árvores presa em seu êxtase, mas o luto que o habita, nenhuma sombra atesta.

 

E nenhuma sombra em ti, entre nós, anunciava o fim dessa pequena eternidade. E contudo dormes; e velo. Cada qual do seu lado do mundo.

 

***

 

Tudo isso é bem bacana, mas é preciso esvaziar o saco. Entre o pincel e o barbante, improvisar um modo de vida, uma espécie de agonia, o quê — há um par de meias cor de calçada, botas sem sola, pelo menos cobrem, há também um cantil e um pacote de mole, cinza e rosa, que deve ser comível tapando o nariz. E depois é se dar uma sesta num terreno baldio cercado de casas fechadas ou numa moita asselvajada. Brincar de judeu errante. Achar-se um outro que se acha um outro que, etc. E escafeder-se de si e do outro. É bom, a pausa da noite. Como uma doença benfazeja. Flanar na beira do abismo. Compadecer-se. Durante todo esse tempo, o fogo agoniza e a panela decide ferver. Embebedar-se até que tudo seque. Ensonhar-se. Parecer um saco de dormir.

 

***

 

Onde a aproximação da morte que nos refaz crianças

te adormece sobre um leito de lírios plausível    atraves-

sado de ondas de inconsciente    sorvendo o cheiro

do frio    desenlaças a linguagem alinhavada    tu

amassas entre os dedos uma pétala de sangue

seco    último signo que se desata    velha pele

de papel

 

***

 

Cá, cá e cá também, o vento animal

das planícies se comove em montanhas

que aplainam as nuvens que vêm do Norte.

Assim põe as mãos de escura ternura

a noite nos ombros desse país.

O corvo revoa em seu voo torto;

gorjeia e crocita, e vai espalhando

sua profecia. O tranco de vida

por fatalidade meã se amaina.

As palavras são só ruídos de ausência.
 

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