
LATITUDES
9 Poetas de Québec
2002
ISBN: 8586372455
Prefácio, seleção e tradução de Álvaro Faleiros
2022 - Editora UnB
Latitudes 9 poetas de Quebec (2002)
Em meio à cena agitada do início dos anos setenta, a Noroît anunciava uma poética que iria ocupar um lugar de destaque na paisagem da poesia quebequense a partir dos inícios dos anos oitenta, e que a antologia de ÁlvaroFaleiros mostra de forma inevitavelmente parcial, mas um tanto exata.
O poeta mais conhecido e festejado ligado à editora Noroît é indiscutivelmente Jacques Brault. Sozinho, ele é um testemunho de toda uma rica tradição da poesia moderna do Quebec. Ele encarna ao mesmo tempo, por excelência, essa evolução que vai de uma poesia marcada pelo destino doloroso e rico em promessas do Quebec dos anos sessenta, característica de seus primeiros livros, até uma escrita contemporânea da memória pessoal, do mundo problemático onde se caminha sem ilusões nem amarras, exercendo simplesmente a função de viver e colhendo ao longo da estrada alguns efêmeros momentos de beleza.
Ao lermos os outros poetas desta antologia da Noroît, de Paul Bélanger a Paul Chanel Malenfant, de Helène Dorion a Louise Dupré, seremos tocados pelo fato de que suas vozes extremamente pessoais compartilham, ao mesmo tempo, um desejo comum de testemunhar,
de “acenar/entre nossas ausências” como escreve Hélène Dorion, sobre um fundo de melancolia que é o oposto de um “vazio da alma”mas que parece mais alimentar uma precisão do olhar e uma acuidade da emoção. Enfim, se a poesia da Noroît é publicada e escrita no Quebec e se nela reconhecemos facilmente esse “povo da neve” de que fala Michel Beaulieu, no espaço que é seu, no nordeste das Américas, resta contudo o fato de que essa poesia faz parte também de uma consciência e cultura mais vastas e que, através de seu sentido do imediato e de sua ausência de profetismo e de grandiloqüência, ela se inscreve num universo e numa história que todos compartilhamos, independentemente
de nossas línguas e tradições.
Geneviève Amyot
É o mês de abril, com certeza, convém dizer “já”… e meus açafrões
estão floridos, e escutei meus primeiros melros; esta é simplesmente
para te falar do rio. Deverias tê-lo visto soltar seus gelos.
Pareceu-me daqui que de início ele os sacudia como a imensa
força de uma antiga fera que se agita e se alonga, que dispersa suas
crostas, se levanta e parte firme rumo ao mar. Deverias tê-lo visto.
Ele expulsou num átimo todos os seus acúmulos. Num átimo, te
garanto, e com que esplendor. Ele sabiamente os moeu, lambeu,
repudiou, eu não sei, mas ele se mostrava, magnífico, toda alvura
devorada outra vez mais, desnudo, perfeito frente ao sol, no
deslumbramento vivo de seus azuis mais densos, de seus azuis
sujeitos à mudança… E então tudo mudou…. Sabes o que é esse
tempo de abril que não cessa nunca de anular passo a passo toda
promessa, de nos colar seus mucos, seus estreptococos, e o rio é
de uma frieza de afogado, e imploramos desesperados o abrigo
rápido de alguma coberta pesada, de algum corpo em fraterno
desvario. Pois o rio é de um cinza de infortúnio, o rio é de um
cinza de indigência, e a neve, a neve persistente e pesada assalta
seu dorso em ataques espessos e ele a absorve, baralhado, numa
submissão sem volta. O rio é uma fera de acasos que nunca terá
salvação. […]
***
Michel Beaulieu
POVO DA NEVE
eu te saúdo
povo da neve
povo abrigado nas tocas
povo da hibernação
povo da pequena miséria
e do fungar cotidiano
eu te saúdo em teus ultrages
em tuas renúncias
mastigas as folhas geladas
o sangue
o chumbo
a fragilidade das mãos
atravessas as fronteiras
onde a história não tem mais leis
eu te saúdo
povo da neve
o estômago desertado
na euforia de tuas ilusões
povo de instinto
povo mineral
povo da língua proibida
e da sublime simplicidade
eu te saúdo em tuas devastações
em teus estilhaços
quando respiras
a unha do gelo
e que ao prazer ofertado
te despojas trêmulo
***
Paul Bélanger
MELANCOLIA
Remonto rumo à catedral
de lajes queimadas
pelas ruas estreitas
fervilhantes de vida
rumo a esse mundo desvanescido.
Tenho o ar de um palhaço
esquecido aí
com o cântico.
***
Jacques Brault
UM DIA QUALQUER
envelheceremos juntos ao pé da porta
cabeças cobertas de galhos brancos e de corvos esquecidos
nossas feridas confundidas sob um sol pálido mãos afiladas
múmias de um amor que a nós se assemelha
teu braço no meu braço meu ombro contra o teu
maravilha então de se despertar como se ressuscita
a manhã não tem nenhuma ruga sobre a pele dos lençóis
vem saiamos em pleno dia a rua não tem nenhuma idade
ainda
tu não dizes nada perto de teus lábios o fôlego se faz raro
eu escuto pela milésima vez o começo do mundo
o tempo se desdobra se explica em espaço o leite tilinta aos
olhos do leiteiro
será inverno será verão nós não sabemos mais entre nós o
instante se esvai
pardais morrem de rir os jornais gritam aturdindo nossas veias
tão azuis se respondem
estremeceremos juntos no fim do passeio
transidos de nos vermos enfim sombras iluminadas
***
Hélène Dorion
Acabamos por responder
que aí estamos, acenar
em meio a nossas ausências
não mais fugir da memória
de certas falhas que ferem
mais do que outras
Acabamos por nos abrir
ao silêncio que retorna
e não mais responder
ao ruído dos passos, não mais crer
que amamos, mantido um instante
a beleza de nossa vida
Acabamos por sentir o tempo
que recua nossos olhares
lentamente os fecha, como uma ferida
de que já não sabemos mais falar
***
Louise Dupré
Qual uma amante que queima seu medo até que reste apenas um
quase nada de brasa, amo que as folhagens cresçam no doce das
lágrimas, no centro do rosto, em seu assombro. A luz. A serenidade,
o eco que a voz encontra se ela toma emprestado novos percursos.
Aprender a pronunciar o nome de meu pai, sorrindo, consentir,
sólida diante dos carrilhões das igrejas, separada. E a memória
arruma suas mortalhas, o corpo cede aos verões dos jardins.
***
Paul Chanel Malenfant
Escuta o sopro, escuta a voz de
violoncelo que surde entre as algas e
os estilhaços de obus.
Traços tensos das guerras.
Soldados de chumbo.
Os grandes lábios do rio falam de
língua materna.
***
Pierre Nepveu
A OBRA DESMANTELADA
No mais profundo das palavras
onde ninguém me vê,
onde as palavras não são mais
que seus próprios fantasmas
e as palavras terra e chuva
apenas nomeiam a si mesmas
perdidamente entregues à tarefa
de sondar, até sossegarem.
Está tão claro e tão leve
nesse vão de desconhecido
e não sei mais
se a sombra e a felicidade
e a maçã sobre a mesa
me pertecem ainda,
nem que outra linguagem
para além poderia nascer
para dizer o quanto eu estava só
e próximo a desaparecer
ao pronunciar essas palavras
***
Marie Uguay
essas ilhas de que falamos há séculos
com seus diamantes de ossos talhados sobre antigas vidas
com sua gratidão de pássaros insaciados
com sua mesma miséria de sempre
essas ilhas onde iremos abrir a terra
reconhecer o céu das estações despedaçadas
nas horas dos sonhos e nas manhãs laranja
essas ilhas em nossos braços
de que falamos há séculos
ó essas solidões