
ISBN: 9788566423471
Álvaro Faleiros (Poemas) | Fernando Vilela (Ilustrações)
Editora Demônio Negro
À Flor do Mal (2018)
Leitor hipócrita,
imagine Baudelaire flanando pelo centro da Pauliceia. Numa esquina ele divisa
uma carniça repugnante:
Pois não era nenhum bicho há dias morto
Encaramos de perto e vos digo
Aquele traste disforme era sim o corpo
De um indígena mendigo
Ninguém o notara em meio ao vaivém do carros
Quiçá nós fomos os primeiros
A ver entre latas e bitucas de cigarros
A sua alma nos bueiros
O bicho, meu Deus, era um homem.
O poeta, antes albatroz, agora foi reduzido a reles urubu. Ele renasceu
brasileiro e xamã. Baudelaire literalmente tupiniquim, já que seu ambiente são as mitologias ameríndias entrecruzadas com os males do Brasil. Neste livro, espelho refratado do presente, você reconhecerá seu próprio rosto, deformado pela sátira. Ao mesmo tempo, sentirá na nuca, enquanto lê, o hálito das flores
fanadas. O estro de Álvaro Faleiros, poeta e tradutor consumado, desta vez
segue um caminho de arrancar máscaras e olhar de frente o rosto descarnado da nossa triste miséria. A putrefação da nossa sociedade vem à luz. Carrasco de si mesmo, Álvaro “traduziu” os cem primeiros poemas das Flores do mal,
adaptando-os para o Brasil atual. Um trabalho imenso. Em vez de spleen, bode.
Em vez de Quadros parisienses, brasilienses. Muitas surpresas para o amante do poeta que em cada verso reconhecerá a paródia – em geral mais pra boca do inferno…
Viviana Bosi

O urubu
Não raro pra tirar onda
Homens pegam urubus
Nobres animais que rondam
Esses nossos sertões nus
Mal colocados no chão
Os reis do céu vão sem jeito
Balançando o seu bundão
Não sabem andar direito
Neste mundo se assemelha
O Poeta ao urubu
Que digere a merda alheia
E ainda vêm comer-lhe o cu
***
Minha musa está soturna
Acordou mal hoje cedo
Teve umas visões noturnas
Anda morrendo de medo
”O anjo tarado e o saci
Te levam a cagar nas calças?
Musinha não fique assim
Teu Papai ao céu te alça
Ele te quer bem de saúde
Forte e rosada e bem de vida
Acha melhor que você mude
E já pensou numa saída
Comprando um apê em Lisboa
Pois aqui ninguém tá de boa”
***
Viajantes
A tribo profética de olhos ardentes
Segue endoidecida solta pela estrada
Se entrega à loucura com febre nos dentes
Crê que a humanidade pode ser curada
Os homens com todos seus rifles e tanques
Aos gritos lançaram sua nova cruzada
Mandaram cavar a todo custo um flanco
Certos da vitória da marcha lançada
O Senhor das Guerras os protegerá
Livrando-os pra sempre de todas agruras
Pois lutam em nome de Cristo ou Alá
— Familiar império das trevas futuras
***
O homem e o mar
Um homem livre sempre ama o mar
De certo modo nele se espelha
No abismo já não sente amargar
O olhar infindo de sua entrega
Ao penetrar mais fundo na imagem
Ele mergulha braços e pernas
Distrai seu espasmo mais selvagem
No rumor dessas águas sem penas
O homem no mar reflete decerto
Mas o mar segue sempre insondável
Em seus fundos abismos secretos
Habita algum sonho improvável
Tal embate atravessa os séculos
Vem na onda que masca e remorde
Mostrando aos visionários que cego
É o tolo que não encara a morte
***
O castigo do orgulho
Oh meu Deus quanto orgulho
Anda solto por aí
Infinito mergulho
Cego e certo de si
Há o orgulho das cátedras
Que altivo reluz
Em teorias críticas
Que à razão nos conduz
Há o orgulho das togas
E de suas sentenças
Que de tão viciosas
Nos infectam as crenças
Há o orgulho do padre
Escolhido por Deus
Onde a fé sempre arde
Nos preceitos dos seus
Há o orgulho do líder
Que dirige o seu povo
Tão refém de seus erros
Que os faria de novo
Há o orgulho do poeta
Que polindo palavras
Arrisca-se profeta
Em sonoras fanfarras
Mas nenhum se iguala
Ao orgulho ignaro
Que doutrinas propala
Feito cuspe e catarro
***
Gigante Brasil
Tem um gigante morando
Em meu coração bravio
Gosta de comer morangos
Quase não sofre de frio
Junto comigo ele habita
Nas águas fundas da dó
É névoa vagando aflita
E que se afoga no sol
É um gigante esquisito
Mas que até fica contente
Quando na tarde quieta
Nos balançamos na rede
***
Hino à beleza
De um infinito enorme espantoso inocente
Beleza monstro que amo de forma indecente
Goza na minha cara vem comigo goza
Horizonte divino que deita na aurora
És escuro formoso mistério e delícia
Carne que curte o ócio em cada minúcia
Vêm do inferno ou do céu isso pouco importa
Teu torpor tua pele escancaram as portas
Teu desejo nos joga na terra e abisma
Um apelo que entrega e atravessa uma rima
Que persegue mil saias qual um cão no cio
Com a alegria sedenta de um voo no vazio
Não se sabe se vens do inferno ou dos astros
Semeando nos campos teus próprios desastres
Inventas teu destino a ninguém deves nada
Nem ao rico da torre nem ao louco na estrada
Nos confundes e curas nos deixa doentes
Com a febre de vida rangendo nos dentes
Caminhas sobre os mortos gozando de tudo
Espalhando perfumes na ânsia do mundo
Beleza doce beleza estranha beleza
Ai cegueira do sol no fogo da tristeza
***
Insaciáveis
Bizarra a sede infinita dos homens
Sede aberta gana libertina
É uma sede que se faz tão ferina
Tão maior que a dos vermes que os comem
Uma sede que enche malas de notas
De um dinheiro imundo e engordado
Nas falcatruas dos leilões de gado
E outras famosas negociatas rotas
Bem-vindo faminto entre no açougue
Escolha sua peça preferida
Picanha piranha qualquer comida
E ninguém saberá o que houve
Não fomos feitos pra morrer de tédio
Foder com tudo é o nosso remédio
***
Carniça
Você se lembra dessa coisa que encaramos
Naquele doce amanhecer
Justo na esquina em que os dois sempre passamos
Era difícil compreender
Pensamos que eram restos de um saco de lixo
Que algum catador remexeu
Depois nos pareceu talvez ser algum bicho
Que noite a dentro apodreceu
Abrindo as pernas com seu ar de javali
Com fedor de peixe passado
Se escancarava à luz do dia bem ali
Um ventre aberto e abandonado
O sol brilhava sobre aquela aberração
Que há muito passava do ponto
Vertendo um mal que só provém da podridão
E que não cabe em nenhum conto
O céu fitava aquela carcaça desnuda
Como uma flor desabrochada
A fedentina tomava conta da rua
Desnorteando quem passava
Moscas zumbiam sobre aqueles restos pútridos
Que ali borbulhavam em festa
Larvas desciam desde o espesso e negro líquido
Até a imensa vida infecta
Aquilo tudo ia e vinha numa vaga
Desde o tareco espumante
O corpo exposto fermentando solto vago
Era uma força suplicante
Que ressoava como uma estranha canção
Uma corrente pelo vento
Ou o murmúrio surdo de uma multidão
Atravessando o pensamento
As formas se moviam numa densa bruma
Numa desajeitada dança
Cena esquecida que aos poucos se esfuma
Feito uma esquisita lembrança
Por trás de um alto muro um cachorro inquieto
Nos esquadrinhava sedento
Prevendo a hora de voltar ao esqueleto
Que ali deixara aos sonolentos
Mesmo com asco o meu espírito e eu
Paramos para ver melhor
A cacaria de escombros que fedeu
E não podia ser pior
Pois não era nenhum bicho há meses morto
Miramos de perto e vos digo
Aquele traste amorfo era o pobre corpo
De um indígena mendigo
Ninguém notara em meio ao vai-e-vem do carros
Quiçá nós fomos os primeiros
A reparar entre as bitucas de cigarros
A sua alma nos bueiros
***
Um dia no shopping cruzei uma perua
Que como um cadáver passeava seu cão
Logo imaginei a delirante luxúria
Que ao certo comporta essa sua posição
Toda a sua pose junto ao cabeleireiro
As joias brilhando em seu cofrinho secreto
O lustro e a pompa que emana do dinheiro
O mimo mais lindo a seu cãozinho dileto
De robe de seda toda dando o seu corpo
Ao velho marido enrugado mas bacana
Lembrando de quando assinaram o tal acordo
Deveriam trepar duas vezes por semana
E levando bimba desse seu vampirão
Lembra que só goza quando passa o cartão
***
Remorso póstumo
Quando enfim cai em si a bela tenebrosa
Depois de se entregar e fingindo que goza
Encara com assombro seu vil ponto cego
De sua vida envolvida em mármore negro
E se entrega a uma rápida meditação
Sobre a carniça que será em seu caixão
Esquecida no mais profundo de uma cova
Sobre a qual se derrama uma tarde chuvosa
Nada vem consolar o seu peito que treme
Os seus olhos molhados e a carne que teme
Quando súbito ouve alguém bater na porta
E se assusta lembrando que não está morta
E que deve seguir bonequinha de luxo
Engasgando na pica do esposo gorducho
***
Inteirinha
Acordo e sem motivo aparente
Um diabo a pergunta coloca
Em seu corpinho a parte mais quente
Seria negra vermelha ou rosa
Qual seria a mais surpreendente
E qual seria a que mais me toca
Haveria uma mais indecente
Qual seria aquela mais gostosa
Mas como em lugares insuspeitos
O seu corpo guarda mil segredos
A pergunta suspende o meu peito
Que já sabe que mais cedo ou tarde
Nessa imensa floresta os meus dedos
Vão brincar vivos em toda parte
***
Reversibilidade
O sopro da alegria conhece a tristeza
A vergonha a miséria o remorso e o choro
E o sufoco que à noite nos tira do sono
Amassando o peito feito papel de seda
O sopro da alegria conhece a tristeza?
O sopro da bondade conhece o ódio
Suas lágrimas de fel seus punhos fechados
Que cede à vingança de olhos esbugalhados
E nos cega e nos crispa diante do óbvio
O sopro da bondade conhece o ódio?
O sopro da saúde conhece a febre
Que habita hoje nas mentes das redes sociais
Onde se destila a fome dos animais
Que fizeram de sua alma um débil casebre
O sopro da saúde conhece a febre?
O sopro da beleza conhece as rugas
E o medo de envelhecer e a angústia da morte
E o horror de saber-se entregue a própria sorte
Das tramoias da vida tão cheias de rusgas
O sopro da beleza conhece as rugas?
O sopro da vida nos traz a sua luz
E na noite escura rebrilham estrelas
E os risos das crianças regam as estelas
E o perfume mais doce cobre os corpos nus
O sopro da vida nos traz a sua luz?
***
Confissão
Aquela noite linda sorria tranquila
Nós dois já meio altos e de braços dados
Bebíamos luz como se fosse tequila
Brincando pelas ruas tão enamorados
Quanto uma criança cruza o nosso caminho
Imunda sozinha e toda esfarrapada
Carregando nas mãos sua crença alquebrada
De quem sabe ser curto o minguado destino
Com seu nariz fedendo e escorrendo catarro
Num tropeço mordaz de pés descompassados
Entrevi no olho da musa a lágrima pálida
De quem sonha outra vida aos desamparados
E seguimos calados no carro blindado
Remoendo silêncio até chegar em casa
***
Louvação
Bela mulher desta terra
Vem desde a relva aqui
Fresco orvalho de estrela
Aplaca a dor e a quentura
Verte pra refrescar
Shoma de muitas lâminas
Corta o peito do homem
Varre no ventre alivia
Com suas setas a dor
Shoma de águas mornas
Desce lavando o mel
E supre o lábio mortal
Doce chamo por ti
Desça pelo pescoço
Rápido deixe o corpo
No fogo encostado
Não ficam venenos
Nem vasos doridos
Só leves pedaços
Doce néctar de árvore
De algodão-sol
***
Soneto de outono
Vejo no claro de teus olhos de cristal
A chama aberta de uma tarde em que se agita
Por sobre a pele de tua hora infinita
Pura candura de um antigo animal
Fruta no caldo dessa geleia geral
A tua mão chega com calma e me convida
A morar lá onde o calor rebrilha em vida
Assim teu sopro me alivia desse mal
E nos amamos com doçura na guarita
Que sim nos dás apesar do arco fatal
Do tempo doido a berrar no vendaval
Já não importa essa loucura toda — Rita
Na noite escura que se faz sol outonal
A tua lua em meio a todo breu levita
***
Gravura
[a meu amigo Fernando Vilela]
Um espectro surge das sombras mais turvas
Mal se pode ver seus contornos e curvas
Se desfaz no ar e parece tão vivo
Na goiva que cava seu nada entre os vincos
Avento seus olhos em meio à espuma
Dos brancos e cinzas nos quais se esfuma
A certeza toda do que os olhos veem
A imagem que resta é só um rosto sem
Sem nenhum detalhe preciso da fronte
Apenas olhar de um etéreo horizonte
***
Fissura no sino
[a Leonard Cohen]
Meu espírito soa
Como um sino trincado
No som que ele entoa
Manda sinais trocados
O rasgo range e troa
Nas faíscas do atrito
Pela fissura ecoa
Também algo imprevisto
No interior do sino
Em seu vão mais escuro
Se revela o destino
Todo cheio de furos
E a fresta se traduz
Em passagens de luz
***
Pode não ser tão simples o gesto
De fazer um balanço dos restos
Retirar o esqueleto do armário
Remontar os anos ao contrário
Acertar as mais antigas dívidas
Que supomos estar esquecidas
Ajeitar os fundos de gavetas
Seus processos contratos bilhetes
E sem nada no canto mais vil
Decerto habitar o vazio
***
Horror simpático
Um carro funerário cruza
A estrada do pensamento
Dirigindo vem a musa
De um modo desatento
Olhando os dentes no espelho
Procura um resto de carne
Mas só enxerga o vermelho
Da casquinha de tomate
Tenta em vão tirar o resto
Entrevado entre os dentes
Repetindo o mesmo gesto
Em vão insistentemente
Como já levara o corpo
Ao seu destino final
A musa para num posto
E enfim passa o fio dental
***
Carrasco de si mesmo
Vou te dar uma porrada
Vem sem ódio e sem raiva
Como faz um açougueiro
Num pedaço de cordeiro
Vou abrir teu supercílio
E na mágoa desse rio
Meu desejo sai mesclado
Junto ao teu sangue salgado
Como um barco sobre as vagas
No coração que embriagas
Roncarão as tuas dores
Com o baque dos tambores
Meu peito desafinado
No fundo bate calado
Em bizarra sinfonia
De sirenes de ironia
Ironia que sacode
E por dentro me remorde
Com o seu veneno negro
Meu rosto ela fez de espelho
***
O cisne
I
Ana C penso em ti — teu pequeno rio
Grave e árido onde outrora esplandeceu
A majestade de teus desejos no cio
Que com teu salto no vazio se suspendeu
O grão de tua lembrança fertiliza
O campo aberto da frágil poesia
No qual este parco poema agoniza
Feito o sonho de um futuro que se adia
Um novo Brasil parecia estar brotando
Pena que dele não reste quase nada
Só um lamento ou suspiro vez em quando
Que provém da multidão apavorada
A memória traída e subtraída
Ainda que fraca esboça um sinal
Tudo súbito muda — as formas de vida
Metamorfoseiam o coração de um mortal
Um belo dia o passeio pela cidade
Parece tão singelo e tão banal
Até o sonho de alguma felicidade
Perpassa por nossa vidinha tão normal
Mas basta um mendigo enlouquecido de raiva
Decidir sair do silêncio de sua jaula
Como um cisne negro que foge da raia
Ou um faminto que desiste de ir à aula
Ele levanta as mãos aos céus e espera algo
Um sanduíche de presunto uma coxinha
Como o cisne que sonha com um lago
Batendo as asas no pó da poça vazia
Sorte do homem sorte do cisne se alguém
Puder olhar com compaixão e lhes der bola
Caso contrário bem se sabe sempre tem
Alguém disposto a dar um tiro de pistola
E acabar de vez com quem incomodava
Mas o que será que mudou em nossa história?
Antes matar mendigo até envergonhava
Agora provê medalha de honra e glória
II
O país muda mas nada na melancolia
Mexe — novos palácios quadras hotéis
Governos tudo soa pura alegoria
Praga venérea que se espalha dos bordéis
Na Praça dos Três Poderes uma imagem
Revolve a mente e meu coração esvazia
Lembro daquele mendigo-cisne selvagem
E o som do tiro que o matou à luz do dia
Olho para a estátua cega e impassível
De nossa misteriosa e soberba justiça
E nesse momento tão sublime é impossível
Resistir ao vendedor de pão com linguiça
Que nos fornece um alimento saboroso
Para quem puder dispor de alguns reais
Pra quem ousar gritar ou erguer o pescoço
Perturbando o cidadão que vive em paz
Não restará às forças da lei outra atitude
A não ser acabar com a invulgar confusão
Afinal um comportamento assim tão rude
É digno da mais dura e firme punição
Naquela mansa e tão aprazível tarde
Ensimesmado remoendo os meus ossos
Sem gritar alto ou fazer algum alarde
Desfilou um batalhão ante os meus olhos
Seguiu-se ao louco fantasma de asa aberta
Uma negra miserável e muito magra
Carregando a sua boneca obsoleta
Despida do luxo da antiga África
Um boliviano introvertido e assustado
Segurando o chapéu esperando sua vez
Para ver se consegue enfim algum trocado
Na fábrica informal do bondoso chinês
Ao vislumbrar tal floresta meu peito se exila
Vibrando nos tormentos da multidão infinda
Pensando em náufragos perdidos numa ilha
Em prisioneiros e em tantos outros ainda
***
Eva octogenária
Ave Eva nave mãe que me navega
Nesta indomável cruzada
Que se faz do nada ao nada
Onde tudo desfeito se reagrega
Assim eu satélite ou astro
Em ti refeito e semeado
Caminho contigo lado a lado
Às vezes tímido às vezes vasto
Ante a luz que emana ou se reflete
Ave mãe leio em teus lábios
O rumo de nossa era
E se teu leite alimenta a terra
É porque emanas o gesto sábio
De saber-nos todos no mesmo barco
Assim o arco da trajetória
Que se desenha livre em asa
Aninha o germe de nossa casa
Na grande árvore da memória
Pois mãe és pássaro em minha hora
E se agora beijo tua herança
Com a boca em fruto e a mão em verso
É porque te amo intenso e terno
No vívido de nossa dança
Soltos no espaço que nos cerca