ISBN: 978-65-990468-6-5
Tradução de Álvaro Faleiros e Roberto Zular
2020 - Selo Demônio Negro
O Cemitério Marinho Paul Valéry (2020)
Em torno de Le cimetière marin, de Paul Valéry: traduções brasileiras
Poucos poemas mereceram tantas traduções e retraduções publicadas em contextos tão distintos quanto Le Cimetière Marin. A escolha de Borges em incluir entre as obras de Menard uma versão em alexandrinos do clássico poema decassilábico de Valéry não passou desapercebida. Para João Alexandre Barbosa, “a reescritura operada por Menard, na medida em que atinge o núcleo da intenção de Valéry — quer dizer, a elevação do verso decassílabo à suposta superioridade do alexandrino — é, ao mesmo tempo, como a reescritura do Quixote, invenção e crítica da leitura….”. A questão colocada por Valéry diz respeito à história do decassílabo e do alexandrino na França, o que nos permite pensar que, como “invenção e crítica da leitura”, a reescrita do poema em alexandrinos numa língua em que o decassílabo é o verso heroico pode ser um modo válido de produzir um giro no tipo de correspondência possível entre o original e sua tradução. Outro aspecto a se destacar é que uma tradução de Le Cimetière Marin não parte, como no momento da criação de Valéry, de uma figura vazia, mas de um texto concreto que preencheu esse vazio. Assim, diferentemente do poeta francês, o tradutor não está diante de um ritmo anterior, e tem de lidar com o ritmo interior que é o complexo sintático, semântico e sonoro que o texto de partida apresenta. Como diz João Alexandre: “a tradução: a leitura interna do movimento nos interstícios do texto”. E esse espaço onde se produz leitura, invenção, crítica e tradução é um lugar dado historicamente. A historicidade da (re)tradução de Le Cimetière Marin produziu este nosso tempo, em que a historicidade do verso emergiu da interioridade do ritmo, levando-nos a um borgeano cemitério dodecassilábico.
(Roberto Zular e Álvaro Faleiros)
Sobre o autor
Ambroise-Paul-Toussaint-Jules Valéry (1871-1945) escritor, poeta, ensaísta e filósofo francês é o principal representante da chamada poesia pura. Como prosador e pensador (se considerava um antifilósofo), a leitura e o comentário de seus textos influenciou autores como Theodor Adorno, Octavio Paz e Jacques Derrida. Na adolescência pensou em tornar-se marinheiro, mas alguns contratempos o obrigaram a desistir da preparação para o ingresso na Escola Naval. Em 1889, iniciou os estudos de Direito no Liceu de Montpellier. Suas recordações dessa época são o grito da alma de um poeta obrigado a conviver com o tipo de ensino que ainda hoje perdura em todas as sociedades: “a estupidez e a insensibilidade parecem-me inscritas no programa. Mediocridade de alma e total ausência de imaginação entre os melhores da classe ”. Naquela época, suas principais atividades consistiam em ansiar pela frustrada carreira de marinheiro (“Estou embriagado com a beleza das coisas do mar e me esforço para apreender sua arriscada e triunfante beleza”, escreveu em 1891) e para descobrir, a partir de a leitura de Contra a corrente, de Huysmans, a literatura e a obra de poetas como Baudelaire, Verlaine, Rimbaud e mais tarde Mallarmé. Já então encontrava na arte “a única coisa sólida”, na metafísica “nada mais que tolice”, na ciência “um poder especial demais”, na vida prática “uma decadência, uma ignomínia”. Em Montpellier conheceu Pierre Louys e, através dele, André Gide, com quem consolidaria uma amizade duradoura. Foram os primeiros ouvintes dos versos que escreveu e que seriam publicados na revista La Conque (fundada por Gide, Léon Blum e Henry Béranger), e do poema Narcisse parle, posteriormente publicado no LʻErmitage. Em 1892, na noite de 4 para 5 de outubro, uma crise que ficou conhecida como Noite de Gênova ocorreu em sua vida, por ter ocorrido naquela cidade portuária. O acontecimento começou a ganhar corpo em junho de 1891, quando Valéry encontrou por acaso na rua uma catalã, por quem se apaixonou. Era uma mulher dez anos mais velha, que ele tornou a ver em outras ocasiões, mas sem ousar se aproximar dela. Segundo o testemunho do amigo Henri Mondor, “o seu langor, o ligeiro balançar da cintura, seus trajes de amazona e uma inquietante desenvoltura o tocaram a ponto do poeta se apaixonar por ela. Ele mal sabia seu nome dele e ela não o conhecia”. Numa carta a Guy de Pourtalès, Valéry confidenciou: “Pensei que estava enlouquecendo ali, em 1892, numa noite branca – branca de relâmpagos – que passei sentado desejando ser abatido.” E em outro texto mais ou menos da época: “Noite Infinita. Crítica. Talvez o efeito dessa tensão do ar e do espírito… Sinto-me OUTRO esta manhã. Mas — sentir-se o Outro — isso não pode durar (…)” Este texto citado por Valéry (“Noite infinita. CRÍTICA …”) está relacionado com o Mémorial Pascaliano (aquele pedaço de papel no qual o filósofo de Port–Royal escreveu os detalhes de sua revelação e que usou costurado em sua jaqueta até sua morte). Para Charles Moeller “a noite de Valéry não foi nem de amor humano nem de amor divino; nem mesmo um sentimento de presença de qualquer espécie: era um susto, uma descoberta da vaidade radical de sua vida anterior. Noite mística, sob o signo do nada ”. Com o acontecimento, Valéry decidiu separar-se de si mesmo, daquele eu que classificou de falso, ao mesmo tempo que separou de si os “ídolos”, como os chamou. Em primeiro lugar, o ídolo do amor, concentrado em uma imagem que desmantelou seu intelecto: a amazona catalã; depois literatura, religião; emocionalidade, que destruiu o equilíbrio da inteligência. Mas então a violência de sua sensibilidade o forçou a buscar um lugar existencial estável. Ele escolheu, em suas próprias palavras, o intelecto, o ídolo do intelecto. A partir daí, para ele, o conteúdo deixaria de ser importante, o que seria apenas vaidade; o essencial seria o mecanismo do fato, o segredo da forma. Em todo caso, e como seria impossível prescindir totalmente de um conteúdo (o vazio seria o resultado), resolveu pelo menos desviar-se dele, para estar sempre além, naqueles lugares que o ascetismo o constituiria.
Cemitério Marinho
[Tradução Álvaro Silveira Faleiros e Roberto Zular]
Ah alma minha
Não aspires à vida imortal
Respire o campo possível
Píndaro, Píticas III
Este teto tranquilo, onde caminham pombas,
Entre os pinhos palpita, palpita entre as tumbas;
O meio-dia justo aí compõe de fogos
O mar, sempre o mar, que desde sempre recomeça!
Depois de um pensamento a maior recompensa
Sobre a calma dos deuses alongar os olhos!
Puro trabalho de finos raios consuma
Tanto diamante de imperceptível espuma,
E quanta paz parece assim se conceber!
Quando por sobre o abismo um sol enfim repousa,
São puríssimas obras de uma eterna causa,
Em que o Tempo cintila e o Sonho é saber.
Tesouro estável, templo simples a Minerva,
Essa massa de calma, e visível reserva,
Água monumental, Olho que guarda dentro
De si um sono imenso sob um véu de flama,
Ah esse meu silêncio!… Edifício na alma,
Mas um cimo dourado de mil telhas, Teto!
Templo do Tempo, de um suspiro o resumo,
A este ponto puro subo e me acostumo,
E meu olhar marinho todo me entretém;
E como aos deuses minha oferenda suprema,
Uma cintilação que semeia serena
Sobre essa altitude um soberano desdém.
E assim como em gozo se derrete a fruta,
Como em delícia sua ausência se transmuta
Numa boca onde morre o que ela formou,
Eu aqui fumo o meu futuro que se esfuma,
E o céu canta à alma que toda se consuma
A transformação das margens em rumor.
E veja como eu mudo, belo céu e de verdade!
Depois de tanto orgulho e tanta ociosidade;
Tão estranho ócio, mas repleto de poder,
Eu me abandono neste seu brilhante espaço,
Sobre as casas dos mortos minha sombra passa,
E me encontro cativo em seu leve mover.
Às tochas do solstício a alma toda atiça,
Sou eu quem te sustento, admirável justiça
De uma luz cujas armas são sem piedade!
Eu te devolvo pura ao lugar de onde vens
Mas devolver a luz, ora veja bem!…
Pressupõe ser de sombra uma morna metade.
Apenas! Para mim, em mim-mesmo, apenas
Dentro de um coração, nas fontes dos poemas,
Entre o vazio e o acontecimento puro,
Espero o eco de minha grandeza interna,
Amarga, sombria, e sonora cisterna,
Ressoando na alma um oco sempre futuro!
Falsa cativa das folhagens, tu bem sabes,
Golfo comedor dessas magras grades,
Em meus olhos cerrados, segredos ardentes,
Que corpo me arrasta a seus fins preguiçosos,
Que rosto me atrai para essa terra de ossos?
Ali uma centelha pensa em meus ausentes.
De um fogo sem matéria, sagrado, enrustido,
Fragmento terrestre à luz oferecido,
Esse lugar, com tantos fachos, me deleita,
Feito de ouro, de pedra e de sombria árvore,
Em meio a tantas sombras estremece o mármore;
O mar fiel ali em minhas tumbas deita!
Cadela esplêndida, afasta o venerador!
Quando sorrindo qual solitário pastor,
Pastoreio por horas carneiros misteriosos,
Branco rebanho de minhas tranquilas tumbas,
Eu quero longe delas as prudentes pombas,
Todos os sonhos vãos, os anjos curiosos!
Tendo chegado aqui, o futuro é preguiça.
Secura que tão só o puro inseto atiça;
E tudo está queimado, tudo se desfigura,
Vem no ar um não sei quê de severa essência…
Vasta é a vida, estando bêbada de ausência,
O espírito é claro e doce a amargura.
Os mortos estão bem nessa terra ocultados
Ela os aquece, seus mistérios ressecados.
Meio-dia justo, sem movimentação
Em si mesmo se pensa e a si mesmo afeito…
Cabeça completa e diadema perfeito,
Eu sou em ti a mais secreta mutação.
Só tens a mim para conter os teus tormentos!
Minhas travas e dúvidas e arrependimentos
São o defeito de teu grande diamante …
Mas em sua pesada noite de mármores
Um povo vagueando entre raízes de árvores
Já se alinhou ao teu partido lentamente.
Eles se amalgamaram numa ausência espessa,
A vermelha argila bebeu a branca espécie,
Eis que o dom de viver passou para as flores!
Onde estão dos mortos as frases familiares,
Sua arte pessoal, suas almas singulares?
A larva tece onde se formavam dores.
O grito agudo das meninas atiçadas,
Os olhos e os dentes e as pálpebras molhadas,
O seio enfeitiçado brincando com fogo,
O sangue que rebrilha em lábios que se rendem,
Os seus últimos dons, os dedos que os defendem,
E tudo vai por terra e entra ali no jogo!
E tu, grande alma, tens ainda um sonho em mira
Que já não mais terá as cores de mentira
Que aos olhos de carne a onda e o ouro ainda têm?
Tu cantarás quando tu fores vaporosa?
Vai! Tudo foge! Minha presença é porosa,
A santa impaciência há de morrer também!
Magra imortalidade sombria e dourada,
Consoladora terrivelmente louvada,
Tu que da morte fazes um seio materno,
A mais bela mentira e a piedosa rusga!
E quem não as conhece, e quem não as recusa,
Esse crânio vazio e esse seu riso eterno!
Pais profundos, cabeças desabitadas,
Que sob o grande peso de tantas enxadas,
Sois a terra e confundis o nosso passo,
O vero roedor, verme não refutado
Não é feito para aquele que dorme sentado,
De vida ele vive e me segue sem cansaço!
Ódio de mim ou amor, quem sabe ao certo?
O seu dente secreto está de mim tão perto
Que qualquer nome lhe é um nome bem preciso!
Não importa! Ele vê, ele quer, sonha e encosta!
Deita comigo e da minha carne gosta,
Eu vivo para pertencer a esse ser vivo!
Oh Zenão! Cruel Zenão! Zenão de Eleia!
Me atravessaste com a tua flecha aérea
Que vibra e que voa, voa sem ter voado!
O som me dá à luz e a flecha mortal me suga!
Ai! o sol… Mas que sombra de tartaruga
Para a alma, e Aquiles se move parado!
Não, não e não!… De pé! À era sucessiva!
Quebra, meu corpo, esta forma pensativa!
Bebe, meu seio, bebe o vento nascente!
Um novo frescor, do mar exalado,
Devolve minha alma… Oh poder salgado!
Vamos até às ondas, jorrando, viventes.
Sim! Gigantesco mar de delírios dotado,
Com pele de pantera e manto perfurado
Pelos mil e mil ídolos do astro solar,
Hidra absoluta, Ébria de carne azulada,
Que remorde essa tua cintilante cauda
Em um tumulto que ao silêncio é similar,
O vento se levanta!… Tento seguir vivo!
O ar imenso abre e fecha o meu livro,
Vaga em pó nas pedras, ousa jorrar por elas!
Revoem páginas, páginas ofuscadas!
Águas festivas quebrem! E quebrem ó vagas
Este teto tranquilo onde bicavam velas!
