ISBN: 8573210540
O Bestiário ou Cortejo de Orfeu (Guillaume Apollinaire)
É imprescindível para um tradutor esclarecer, ainda que sucintamente, as linhas gerais que o conduzem em seu trabalho. No caso do Bestiário de Apollinaire, encontrei-me diante de problemas clássicos perante o ato de traduzir, visto que se trata de um conjunto de poemas com métricas e rimas fixas. Procurei conservar toda a métrica original, sem contudo levar em conta as acentuações silábicas, preferindo privilegiar o ritmo que me parecera o mais natural possível.
Quanto às rimas, conservei-as quase todas como se encontram no original, mas em alguns poucos casos defrontei-me com problemas que não consegui resolver, substituindo rimas consonantes do original por rimas toantes que mantivessem a dinâmica do original. Foi o caso de infecto/inseto em “Orfeu II”, de gafanhoto/solto em “O Gafanhoto”, de sabor/salvador em “Orfeu III” e pássaro/lábaro em “O Pavão”. Há outros dois casos em que recorria rimar um singular com um plural para conservar o sentido. Em “O Dromedário”, rimei ideário/dromedários, e beldades/acuidade/crueldade em “A Serpente”. Creio, contudo, que estas pequenas liberdades poéticas não prejudicam em nada a compreensão e a estética da obra.
No final do livro há uma série de notas que são de autoria do próprio Apollinaire. Por se tratarem de notas não considerei necessário coloca-las também no original. Seguem-se às notas do próprio autor uma sucinta biografia e breves notícias sobre O Bestiário.
(Álvaro Faleiros)

ORFEU
Admirem o poder notável
Desta linha nobre e louvável:
Ela é a voz que veio da luz ressoando
De que fala Hermes Trimegisto em seu Pimandro.

A LEBRE
Não sejas lascivo e assustado
Como a lebre e o apaixonado.
Faça com que o cérebro seja
A fêmea que vários enseja.

O DROMEDÁRIO
Com seus quatro dromedários
Senhor Pedro d’Alfaroubeira
Mirou o mundo, desceu ladeira.
Seria meu este ideário
Se eu tivesse tais dromedários.

A LAGARTA
Só o trabalho que enriquece.
Pobre poeta, à picareta!
A lagarta sem cessar tece
Pra transformar-se em borboleta.

O GATO
Desejo manter em meu lar:
Uma companheira a pensar.
Andando entre livros um gato,
Bons amigos sempre a passar
Sem os quais o viver é ingrato.

O POLVO
Jogando aos céus o seu veneno,
Sugando o amado, e nada a esmo
Saboreando-o até estar pleno,
Este monstro vil sou eu mesmo.

A MEDUSA
Medusas trazem triste imagem.
Cobertas de lilás plumagem,
Na tempestade elas aguagem.
E brincando ajo como agem.

A CARPA
Nos nossos viveiros, moradas,
Quão longas são vossas jornadas!
A morte vos esqueceria,
Ó peixes da melancolia.

A CORUJA
Meu coração, coruja muda,
Onde se gruda e se desgruda.
Feito de sangue e ardência aguda
Exalto o amor que a mim aluda.

ORFEU
A fatal fêmea do alcião,
O amor, as aladas Sereias,
Sabem uma mortal canção
Inumana e cheia de teias.
Que não te encantem tais ruídos,
Só anjos devem ser ouvidos.
