ISBN: 9788574784224
Tradução e comentários de Jozé Bizerril e Álvaro Faleiros - Edição Bilingue
2009 - Ateliê Editoral
Kalevala (Poema Primeiro) Elias Lönnrot
A epopéia Kalevala não é – para os finlandeses – apenas um livro. Os poemas tradicionais milenares, coletados por Elias Lönnrot (1802-1884), fundaram a base do sentimento de uma identidade nacional na época da sua primeira publicação em 1835.
Fico satisfeita que seja publicado no Brasil o Poema Primeiro por dois tradutores tão bem qualificados como José Bizerril e Álvaro Faleiros. Poeta e Doutor em Antropologia pela Universidade de Brasília, José Bizerril desenvolveu pesquisa sobre o épico finlandês e sobre as relações entre tradição oral e literatura durante seu mestrado em antropologia. Álvaro Faleiros, além de poeta e tradutor, é Doutor em Tradução pela Universidade de São Paulo. É com prazer e gratidão que expresso os meus parabéns e congratulações aos tradutores deste ‘Poema primeiro’ de Kalevala para o português. Apesar do grau de dificuldade, o resultado é um sucesso, pois uma tradução que transmite a sonoridade original até para uma leitora finlandesa, cujo ouvido se acostumou com a versão original, merece elogios.
(por Raisa Ojala)
Poema Primeiro
Minha mente almejando,
meu cérebro concebendo
começar logo a cantar,
e sair a recitar
puxar versos deste povo,
cantar versos ancestrais.
Palavras na boca solvem
e falares desfalecem
na minha língua se aninham
entre os dentes se esfacelam.
Meu irmão, caro irmãozinho,
amigo de meninice!
comigo vem canta agora,
vem de novo alça a voz
lado a lado aliemo-nos,
provindos de dois lugares!
Raramente reunimo-nos,
temos no entanto um ao outro
por estas pobres fronteiras,
nas tristes terras do Norte.
[…]
Frio me proferiu seus versos,
chuva chamou seus poemas.
Outros versos trouxe o vento,
ondas do mar conduziram.
Aves versaram palavras,
frases o cimo das árvores.
Enrolei-os numa bola,
arrumei-os num novelo.
Bola espetei no trenó,
novelo no trenózinho;
arrastei-o para casa,
do trenó para o celeiro;
e de lá à prateleira
dentro da arca de cobre.
[…]
Então canto um bom verso,
forjando a também formosa
poesia do centeio,
a cerveja da cevada.
Se não chegam com cerveja,
se acelerado não servem,
canto com a boca magra,
mas sigo mesmo com água
para alegrar nossa noite,
para honrar o nobre dia,
deixar a manhã contente,
iniciar nova alvorada.
