
ISBN: 978-8573210194
Álvaro Faleiros (Poemas)
Editora Iluminuras
Este é o livro de estréia de Álvaro Faleiros como poeta, estréia auspiciosa,
uma vez que com ele o autor obteve o Prêmio Estímulo de Literatura da Prefeitura de Campinas, de 1994.
Além dos poemas aqui reunidos, outros mereceram publicações em revistas literárias, sendo digna de destaque a "instalação" P.A.R.Á.B.O.L.A. de que o autor participou como poeta junto com o artista plástico Paulo Costa, no Museu de Arte Contemporânea de Campinas - "José Pancetti", em abril de 1995.
Coágulos compõe-se… num registro de luz que escoa em "sol", "dia", "manhã", "aurora", associado a um alerta dos sentidos (audição, visão, tato) solicitados a se ativarem para alcançarem a fruição do dia que é tempo. Desenhando um movimento vertical, a luz vem do alto e desemboca debaixo da terra, privilegiando um espaço intermediário de natureza florescente, simbolizada por um sismógrafo-girassol. A partir deste lugar subterrâneo engendra-se um movimento de retorno ao sol. Assim, o sentido de verticalidade prossegue, só que agora na direção oposta: de baixo para cima, atravessado pelo tempo experimentado e vivido.
Esse mergulho na experimentação… põe em giro também uma forma poética inquieta que se busca a si mesma. Como procurar a própria dicção sem reportar-se a uma linhagem poética? Poemas dedicados a Vicente Huidobro, Manoel de Barros… determinam não só os parâmetros poéticos de Álvaro Faleiros, como interferem na composição de uma espécie de "liga" que lhe fornece a matéria da composição.
Borges, em "El Aleph" define o poeta ineficaz como aquele cujo trabalho de poeta não está na própria poesia, mas na invenção de razões para que essa poesia pareça admirável. Se as referências ou citações funcionam apenas como digressão pitoresca ou, nas palavras de Borges, como "galharda apóstrofe", em suma, se estão fora do jogo, o texto não funciona.
Em Coágulos, a citações tem funcionalidade. Elas entram na composição de um patchwork vitalizante, criador de confrontos, que inclui a falha, a incompletude, como se pode ler no poema que dá o tom geral a essa poesia:
"a colcha
com sua força de falha
é o berço
do meu aceno.”
Admitir a falha, o fracasso, a existência de um "resto" que nem mesmo a palavra poética alcança tocar é, por si só, um ótimo começo para um jovem poeta.
Berta Waldman
O Girassol
I
era uma noite de farpa
com olhos abaulados
e pés de girassol
regulava o pêndulo
junto à santa desbotada
— amarras nos pulsos da aurora —
de joelhos sobre a farpa
pairava um tempo nos olhos
a vó resumia seu sorriso
a pequenas tosses ancestrais
rezava só
— solfejo de adagas em atrito —
naquela noite de farpa
II
o girassol desenterrou-se
na insônia passageira
os ares da manhã
sob os fiapos da hora
o girassol não era ela
era um trânsito involuntário
dela rumo encontrá-lo
III
e ela queria encontrá-lo
num cais preciso
um tom quase silente
pelo que de árduo em si
a tormenta procria
o girassol não estava ali
sentou-se sem pressa
com sequoia no peito
IV
quando já era verme
descobriu que amava
o sol
***
Um Giro ao Sol
I
o sol
desceu
amarelindo
com
ar
de reticências
um bumerangue
abrindo os
vãos
II
tingiu-se
a imensidão
a d o r m e c i d a d e h o r i z o n t e
III
a noite
de horizonte aberto
me dá um frio de infinito
IV
minguante
lua
louca
pinta
pouca
torta
no ar
arte
arco
parco
de luz
traz
paz
satélite
que sorri
***
na alma larga
anda a falta
nada a alcança
nada a acalma
trama palavras
arranca máscaras
plana mansa
na transa
atrapalha
avacalha
cavalga
a falta
***
Elos
I
Galáctica
[a Vicente Huidobro]
Como serpente pingando veneno
Espalhando faíscas de medusa
Olhos amando pedra
Abraço nos ossos mais duros
Beijo suicida no vidro
Numa noite de céu sem nuvens
Víbora lambendo a lua
II
[A Manoel de Barros]
Num ramo da árvore a rã
Ronrona ao sapo provérbios
Aguaceiros soberbos
Desempedram
Um menino
Refazendo caracóis
III
Circulação
[a Fernando Vilela]
A goiva vagueia
O mogno — magma
sua tez
propícia a sulco
e correntezas
urdida pro correr
de outras seivas
IV
Fissura
dolores
duran
- te -
o partir
dos seus
dias