
ISBN: 8574803766
Álvaro Faleiros (Poemas) | Fernando Vilela (Ilustrações)
Ateliê Editorial
Em Meio Mundo, o autor aprofunda sua experiência com a poesia epigramática, acrescentando a ela um elemento de seu trabalho como cordelista, dramaturgo e cancionista popular: a voz. Baralhando as fronteiras entre o erudito e o popular, o poeta dá forma escrita à fala das ruas. Além disso, emprega a velocidade e a leveza da poesia oriental de inspiração leminskiana.

a memória
conta os dias
que recolhe
em seu colar
***
soneto bárbaro
enquanto lemos jornais, putos
com esses tempos de barbárie
nas ruas e calçadas, cáries
e esgotos enchem viadutos
há bandos de manos nas ruas
alguns trazem metralhadoras
seus dentes encravam esporas
na carne fresca das peruas
no topo de uma cobertura
festejam cheios de champanhe
lucros na bolsa de valores
no morro nego na fissura
neste país sem pai nem mãe
injeta e fuma as suas dores
***

orientais
I
orquídeas no jardim
página pousada
cuidadosamente
rota de mil pássaros
as lembranças
pétalas são origâmis
II
um todo
no tempo
vibra
um raio
no templo
luz
III
vem tu vento
lentamente
sem tormenta
sem tormento
vê se assente
sopra só
e se assenta
um lençol
cobre de brisa
o pensamento
vem tu vento
sossegado
ternamente
sem lamento
sem tornado
alça a vela
sem mormaço
lá vai ela
abre espaço
no que penso
***


no umbigo do equador
I
ouvi os guizos dos macacos
chiados curtos
de folhas nos galhos
depois os saltos
anunciados
os meninos
na ponta dos rabos
dançando acrobacias
II
curumim ri
voa liberto
salta no rio
antes do splash
na viga do vento
vinga o vazio
III
preguiça moço
aqui tem muita
estira os braços da tarde
nem mexe à noite
balança rede
depois do almoço
preguiça dá abraço grande
ri fácil
preguiça
é que nem caboclo
só malícia moço
****
da cor do mamão de nossas manhãs
I
minha rita
acordei hoje
como se flutuasse
andei dez vezes a sala
com os pés em flor
tua presença me regava
com mais que lembranças
com o coração ancorado
II
manhã de núpcias
dançamos
pelo mundo
a canção do sol
